Tornou-se indiscutível que a prática de atividades
físicas é importante para manutenção da saúde. Nesse contexto, a
musculação vem ganhando um espaço crescente, por proporcionar resultados
estéticos, melhorar o desempenho desportivo e ajudar na prevenção,
recuperação e reabilitação das mais diversas condições patológicas.
Cientes desses benefícios, muitas pessoas procuram
locais especializados para prática de musculação. No momento de
escolher onde treinar, diversos fatores são levados em consideração,
como a proximidade de casa/trabalho, estrutura física, preço, tipo de
público que a freqüenta... No entanto, o fator principal muitas vezes é
negligenciado: a qualidade do acompanhamento profissional.
No
Brasil, é obrigatório que as academias tenham um professor de Educação
Física, devidamente registrado no CREF (Conselho Regional de Educação
Física) para supervisionar os seus alunos. Essa prática não é novidade
na área da saúde. Para exercer suas profissões, médicos, enfermeiros,
nutricionistas e fisioterapeutas, por exemplo,devem possuir formação na
área específica e registro no conselho respectivo. No caso da Educação
física, isso é uma forma de proteger o praticante, garantindo a sua
segurança e os seus resultados. No entanto, uma tendência de mercado vem
preocupando os profissionais mais atentos e comprometidos: a criação
de academias na qual a supervisão é negligenciada. Como a folha de
pagamento é uma das principais fontes de despesa das academias, muitas
empresas estão abrindo mão de bons profissionais para atender seus
alunos, ou até mesmo abrindo mão de ter um profissional em sala, com
objetivo de reduzir custos. Essas academias normalmente possuem poucos
profissionais em sala, os quais servem mais para dar satisfações legais
do que propriamente para atender os praticantes.
Apesar desses
locais normalmente não serem procurados por pessoas com problemas de
saúde (pois elas normalmente têm consciência dos riscos de um
acompanhamento inadequado), muitas pessoas com objetivos estéticos e
pensando em pagar mensalidades mais baixas as têm procurado. Mas será
que a falta de acompanhamento não prejudicaria os resultados?
O
primeiro estudo sobre o tema foi publicado por Mazzetii et al. (2000).
Os autores compararam as mudanças na força máxima e na potência muscular
após 12 semanas de musculação em homens moderadamente treinados, os
quais realizavam os treinos sob supervisão individual ou sem supervisão
direta. Os participantes tinham entre 1 e 2 anos de experiência em
musculação, mas nunca haviam treinado sob supervisão direta. Os dois
grupos realizaram treinamentos idênticos, com as mesmas margens de
repetições, séries, exercícios, etc. A diferença foi que o grupo
supervisionado treinou com o acompanhamento direto de um especialista em
todas as sessões, enquanto o grupo não-supervisionado teve
acompanhamento apenas em uma sessão de familiarização, na qual o treino
foi demonstrado e explicado, em seguida os treinos ocorreram sem
supervisão, havendo apenas auxilio de um colega de treino nos exercícios
como supino e agachamento, por questões de segurança. Ao final do
estudo, os ganhos de força e potência muscular, bem como os ganhos de
massa magra e a perda de gordura foram maiores para o grupo
supervisionado.
Posteriormente, Coutts et al. (2004) examinaram o
efeito da supervisão durante 12 semanas de musculação nos resultados
obtidos por jovens jogadores de rúgbi. Novamente, os grupos realizaram
exatamente o mesmo treino, com diferença apenas na supervisão. No treino
não supervisionado, havia profissionais na sala para dar informações,
quando solicitados, mas o acompanhamento direto dos 21 atletas foi
realizado por um gerente da equipe, sem formação na área, cujo papel era
apenas controlar a freqüência e outros aspectos administrativos. O
outro grupo treinou sob supervisão direta de especialistas, com a
relação de 1 professor para cada 7 alunos. De acordo com os resultados,
os ganhos de força foram maiores para o grupo que treinou sob
supervisão.
Com esses dados, fica claro que, mesmo em pessoas
treinadas, a supervisão tem um papel essencial nos resultados. Aqui
deve-se lembrar que a simples vivência em uma atividade não transforma
uma pessoa em um especialista. É interessante ver alguns praticantes de
musculação acreditarem que são auto-suficientes devido à prática e que
não precisam de orientação profissional em seus treinos, quando mesmo
atletas profissionais, com vasta experiência em suas atividades,
recorrem ao acompanhamento de um treinador formado. Vamos pensar bem, se
o acompanhamento não fizesse diferença, será que os atletas olímpicos,
ou equipes profissionais de futebol, basquete, vôlei, etc. gastariam
dinheiro contratando técnicos e preparadores físicos?
O professor
de Educação Física passa anos estudando as diversas ciências
envolvidas na prática de atividades físicas, como fisiologia,
bioquímica, biomecânica, cinesiologia, anatomia, sem esquecer de outras
não menos importantes como as relacionadas à aprendizagem motora,
psicologia, etc. E esse conhecimento acadêmico é essencial para se
tirar o máximo de proveito de um treino. Por exemplo, um bom
profissional saberá controlar a velocidade, intervalos, aproveitar
melhor os ângulos de movimento, ajustar cargas, etc. variáveis pouco
compreendidas e muito importantes para os resultados (Gentil, 2011).
Nos estudos anteriores, por exemplo, os participantes tinham vários
meses, ou até anos, de experiência na prática de musculação, e os
resultados só vieram com um acompanhamento adequado, mesmo que os
treinos fossem exatamente os mesmos para os grupos que treinaram com e
sem supervisão.
Nesse ponto, muita gente pode levantar a
hipótese de que a supervisão seja mais importante para atletas e
pessoas treinadas, pois eles precisariam de estímulos mais eficientes
para se adaptarem, em comparação com um aluno comum de academia. A
resposta a isso vem de um estudo conduzido pelo nosso grupo, no qual
foram comparados os efeitos da supervisão nos ganhos de força de 124
homens jovens, não-treinados, após 11 semanas de musculação (Gentil
& Bottaro, 2010). Os participantes foram divididos em turmas de 20 a
25 alunos, metade com supervisão alta e metade com supervisão baixa.
Nas turmas com supervisão alta, havia 4 a 6 professores por turma, o
que mantinha uma supervisão média de 5 alunos por professor, já nas
turmas com supervisão baixa, apenas um professor cuidava dos 20 a 25
alunos. Os grupos realizaram exatamente os mesmos treinos, com os
mesmos exercícios, mesmas margens de repetições e mesmos intervalos
entre as séries. Os professores não tinham conhecimento do objetivo do
estudo, e sua instrução, independente de estar com supervisão alta ou
baixa, foi para manter os alunos motivados e orientá-los com relação à
execução correta e ajuste de intensidade. Ao final do estudo, o grupo
que treinou sob supervisão alta obteve um aumento de 15,9% na força do
supino, o que foi maior que os 10,22% obtidos pelo grupo que treinou sob
supervisão baixa. As maiores diferenças, entretanto, ocorreram para o
torque dos membros inferiores, no qual o grupo sob supervisão alta
ganhou 11,8%, enquanto o aumento de 1,4% do grupo que treinou sob
supervisão baixa não foi significativo.
A explicação dos
resultados encontrados dos estudos anteriores está na maior aderência ao
treino, maior progressão da carga e utilização de intensidades mais
adequadas. No entanto, é importante notar que nesses estudos os treinos
foram os mesmos para os dois grupos, algo que não será verdade para uma
pessoa treinando sem supervisão. Sem supervisão, o praticante monta o
próprio treino ou o copia de uma outra pessoa, o que aumentará ainda
mais os riscos à saúde e diminuirá a possibilidade de se obter bons
resultados. Imagine quão diferentes seriam os resultados se fossem
comparados treinos elaborados por profissionais de Educação Física e
treinos montados por pessoas não formadas?
Desse modo, fica claro
que, independente do nível de treinamento, a supervisão por um
profissional especializado, bem como uma relação adequada
professor:aluno são essenciais para garantir a segurança e os
resultados. Na hora de escolher uma academia, não basta observar se ela
está na moda, é barata ou bonita. Lembre-se que uma academia é movida
essencialmente pela qualidade dos profissionais que nela trabalham. O
acompanhamento adequado pode representar a diferença entre ter ou não
ter resultados. Portanto, quando for procurar um local para treinar,
mais do que qualquer outra coisa, observe principalmente se você terá
acompanhamento direto de bons profissionais.
Escrito por Paulo Gentil
Fonte:
Revista Medicando - Edição 8.
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Grande abraço,
Beto Barros